Televisão

Se o nascimento da rádio se coloca como ponto de con¬fluência de desejos, aspirações e carências de ampla parcela da população portuguesa, materializando-se no espaço doméstico como objecto de atenções e no espaço urbano como mediador de relações, a televisão segue o mesmo caminho. A televisão adquire centralidade nos lares portugueses, obscu-recendo o papel que o rádio havia exercido décadas antes. No entanto, a sua presença material exige uma atenção diferente da exigida pelo aparelho radiofónico. Se o rádio acompanhava o receptor onde quer que ele estivesse, a televisão nasce fixa e assim permanece durante muito tempo. A televisão controla as atenções em torno de si, procurando maior quota de audiência. O seu po¬der persuasivo é maior porque a imagem impõe-se como soberana relativamente à voz. Essa imposição é alicerçada pelo uso, desde os primeiros anos, da espectacularidade da imagem, que incorpora níveis de atenção superiores ao do antigo meio.
A espectacularidade dos eventos torna-se mais real do que os próprios eventos. O imaginário mais real do que o real, revela-se por inteiro por intermédio da co¬municação mediada tecnologicamente. Personagens de telenovela tornam-se íntimos e tão próximos quanto um parente ou um ami¬go querido. Comenta-se a sua história, fala-se do seu carácter, das suas escolhas, das suas opções, nos lares, nos bares, tor¬nando-se, as personagens da fantasia mais verosímeis do que os políticos que ocupam as páginas dos noticiários. Enquanto isso, os discursos dos políticos, de tão cruéis, transformam-se, para muitos, em “contos-da-carochinha”, uma vez que o vilão, de tão vilão, torna-se a personagem de um mundo fantasioso.
Entretanto, as sociabilidades diferenciam-se à medida que o meio comporta novos avanços. A televisão paga, constrói um novo ciclo de interacções. Para uma pequena parcela da população, comenta-se não sobre o escândalo de um político português ou o vilão da novela das vinte e uma, mas sobre políticos e personagens do mundo. As conversas nos bares, nos shoppings, nas praias, nas universidades tornam-se interditas para muitos, pois os conteúdos referen¬ciais estão inacessíveis para a maioria da população. Cria-se uma sociabilidade marginalizadora. São ainda poucos os convidados a participar dos colóquios informais. A televisão divide as classes sociais. Há a televisão para poucos e a televisão que todos vêem.
A televisão, agora como dantes, é símbolo de estatuto social. Na lógi¬ca de configuração das estruturas de poder social, a televisão revelava-se como moeda forte. Restrita a poucos devido ao alto custo inicial, a televisão era um chamariz. A televisão funcionava como um divisor social, entre quem, possuía o sonhado bem, e os que não possuíam o objecto desejado. À semelhança das festas medievais, que cava¬vam um espaço entre a multidão para ver o rei passar, ou, por outras palavras, para ver o apresentador representar. A moldura da janela, por onde o olho marginal passava à procura de miga¬lhas de imagens, separava os que foram convidados para a festa, a nobreza dos plebeus, os penetras do espectáculo. A moldura na janela funcionava como o fosso que separava os moradores do castelo dos humildes campesinos. Era a segmentação social mediada tecnologicamente.
Nos lares, a televisão mistura-se com os objectos de decoração das sa-las criando uma harmonia estética e transforma-se ela mesma em adorno. Entretanto, mais do que mero adorno, a televisão incorpora-se rapidamente no imaginá¬rio dos utilizadores. No seu início, a TV é o arquivo cultural do rá¬dio, na medida em que utiliza, tanto quanto este, os romances como pretexto para a dramaturgia, no tempo em que assimila a estrutura narrativa das radionovelas traduzidas, agora, em ima¬gens, e transfere o ritmo frenético dos programas de auditório para o espaço privado.
A televisão a cores proporcionou uma mudança na relação das pessoas com o mundo em seu redor, funcionando como um gerador de mudança. Por exemplo, após as primeiras emissões da televisão a cores entre outras situações as pessoas começaram a vestir-se de uma forma mais colorida e alegre.
Nos lares, sociabilidades particulares distinguem gerações distintas no uso da televisão. Os jovens vêem TV mais do que a escutam, pois este meio exerce um po¬der imaginário sobre os mesmos. Estes olham para a televisão, atraídos pelas suas imagens, enquanto têm a audição voltada para outro meios. A imagem traduz os discursos necessários à compreensibilidade e a TV só é accionada na sua plenitude quando a imagem for atraente o suficiente para exigir atenção específica. Os adultos, têm uma atenção também desfocada, mas noutro nível, ouvem-na mais do que a vêem. Estes fazem as suas rotinas domésticas enquanto es¬cutam os programas do momento. A televisão, da mesma forma, só se agiganta quando a narração se torna dramática o suficiente para exigir atenção redobrada.
A televisão, a partir de 1990, acompanha, assim como o rádio, o utilizador. Das salas, desloca-se para os quartos, para as varandas, para as cozinhas, para as casas de banho. Em cada um desses espaços requer sociabili¬dades específicas. Para os jovens, junta-se, no quarto, ao vídeo ou mais recentemente ao DVD, agindo como demarcação de território: verdadeiras trincheiras uns; fortalezas inexpugnáveis, outros. Mas a TV, à semelhança do rádio, invade também os espaços públicos. Ela não se encontra nas praças, como no início, mas sim nos bares, nos restaurantes, nas casas de espectáculos.
Nos restaurantes, é peça imprescindí¬vel. Em casa, não é diferente: come-se assistindo à TV. Nos bares, compõe o ambiente: conversa-se com o olho na TV. Nos estádios de futebol, acompanham-se os lances também por ecrã gigante, mas aí, além do indivíduo ver o espectáculo em acção, também, e principalmente, vê-se a si próprio nele inserido.
Os profissionais dos média perdem a individualidade e trans¬formam-se nas suas próprias personagens. São reconhecidos nas ruas como tais, são chamados para apresentar eventos nos quais incorporam papéis, montam escândalos ao estilo do melhor me¬lodrama televisivo para terem espaço na imprensa. Os reality shows revelam uma exa¬cerbação dessa prática que já era corrente nos áureos tempos do cinema. Nestes programas não somente os participantes viram personagens, recriando a sociabilidade básica – ir ao WC, tomar banho, escovar os dentes, dormir –, mas também trazem à mente da audiência a ideia da existência de uma vida pú¬blica que só existe em função da vida privada na sua dimensão mais elementar. Uma vida privada que só ad¬quire significado e relevância quando espectacularizada…
A luta de classes na transmutação de fronteiras desaparece. A empregada doméstica está no mesmo nível de interacção com a alta sociedade, o playboy com o hippie, o empresário com o ocioso. Cria-se a ideia da existência de uma sociabilidade sem classes sociais, que se concretiza na televisão e também no imaginário da audiência, dos mais desfavorecidos na escala social aos mais beneficiados pelo sistema. Esses últimos, por sinal, constroem uma interacção com um outro meio, inacessível para os primeiros: a Internet
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